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Entenda a diferença entre pacientes assintomáticos e pré-sintomáticos; transmissão da Covid-19 repercute após fala da OMS


A chefe do programa de emergências da Organização Mundial de Saúde (OMS), Maria van Kerkhove, deu declaração de que a transmissão da Covid-19 é "rara" entre pacientes sem sintomas. Especialistas, no entanto, alertam para fala precipitada e Bolsonaro usa informação para defender flexibilização


A transmissão da Covid-19 por pessoas sem sintomas da doença parece ser "rara", contou a chefe do programa de emergências da Organização Mundial de Saúde (OMS), Maria van Kerkhove, nesta segunda, 8. As informações são do portal G1.
Horas após a fala, Kerkhove alertou que há diferença entre assintomáticos e pré-sintomáticos. Pessoas assintomáticas são aquelas que não manifestam sintomas (como tosse e espirro no caso da Covid-19), mas mesmo assim podem transmitir a doença. Já pacientes pré-sintomáticos são aqueles que vão desenvolver algum sintoma da doença e podem também transmitir o vírus durante essa "janela" e quando estiverem com os sintomas.
Maria van Kerkhove deu a declaração durante pronunciamento onde argumentava que a contenção da transmissão da Covid-19 pode ser mais rápida com a localização e o isolamento dos casos sintomáticos. A explicação de Maria foi alvo de críticas e dúvidas. Ela reforçou a diferença entre pacientes assintomáticos e pré-sintomáticos no Twitter e recomendou a consulta ao guia da OMS publicado na sexta, 5, que trata do uso de máscaras para a proteção.
No documento, a entidade diz que "estudos mais abrangentes sobre a transmissão de indivíduos assintomáticos são difíceis de conduzir", mas cita um trabalho como exemplo. A pesquisa aponta que, entre 63 indivíduos assintomáticos estudados na China, havia evidências de que 9 (14%) infectaram outra pessoa.
No mesmo documento, a OMS alerta: "Os dados disponíveis até o momento, que tratam de casos de infecção em pessoas sem sintomas são decorrentes de um número limitado de estudos com pequenas amostras que estão sujeitas a revisões e não podem dizer se eles carregam a transmissão."
Medidas de higiene e distanciamento social
A declaração foi criticada por ter soado ambígua. Entre os críticos que ajudaram a elucidar o pronunciamento esteve o diretor do Instituto de Saúde Global da Universidade de Harvard, Ashish K. Jha. O pesquisador de Harvard argumentou no Twitter que infectados que não apresentam sintomas são uma forma importante para a transmissão da Covid-19.
Ashish também explicou que apenas 20% dos infectados não desenvolverão nenhum sintoma. Os outros 80% poderão desenvolver sintomas leves ou mais duros da doença. "Muitos deles já espalham o vírus antes de desenvolver sintomas", disse Jha. "Eles são, tecnicamente, pré-sintomáticos e não assintomáticos." Ele ponderou que a OMS diferencia os dois casos e ressaltou que há mais casos de indivíduos pré-sintomáticos que assintomáticos.
O biólogo e divulgador científico brasileiro Atila Iamarino também comentou declaração da OMS. No Twitter, ele torceu para que a afirmação da chefe do programa de emergências da Organização Mundial de Saúde (OMS) seja verdade e se confirme, mas também chamou atenção para a diferença entre assintomáticos e pré-sintomáticos.
"Maria Van Kerkhove parece ter falado de assintomáticos que nunca desenvolvem sintomas. A transmissão por essas pessoas sempre foi incerta. Sabemos que acontece, mas não quão comum é. Ela disse que isso parece ser raro, mas ainda não está publicado", escreveu o biólogo. Atila aproveitou o fio para reforçar o uso da máscara. "Se você pegar Covid-19, não tem como saber de antemão se vai ou não desenvolver sintomas, se vai ou não transmitir muito. Então se cuida e cuida de quem tá ao seu redor", disse.
Veja post do brasileiro:

Para o epidemiologista Marcelo Gurgel, que também integra grupo de estudos sobre Covid-19 da Universidade Estadual do Ceará (Uece), a fala de Maria foi precipitada. Mesmo assim, o médico torce para que isso seja concretizado, pois representaria um "respiro" no sistema de saúde dos países. "Foi uma notícia que causou certa estupefação. Indicar que a transmissão dos assintomáticos é pequena pode deixar as pessoas mais à vontade (para retornar às atividades)", indica Gurgel. Para ele, isso representa um perigo, pois mesmo que uma pessoa não manifeste sintomas, ela ainda pode transmitir a doença.
Ainda há casos de pacientes que passam todo o quadro de infecção sem manifestar qualquer sintoma e outra parte dessas pessoas assintomáticas está apenas em uma fase de transição e pode vir a ser sintomática. Segundo Marcelo, não é hora de baixar a guarda e deixar de lado os métodos de higiene e distanciamento.
Ainda tem outra questão importante: a transmissão pelo novo coronavírus não acontece somente por contato com pessoas infectadas, mas também através de superfícies e objetos onde o vírus pode estar.
Bolsonaro distorce e defende flexibilização de medidas
O presidente Jair Bolsonaro (sem partido), após declaração da OMS, defendeu a flexibilização de medidas de isolamento e distanciamento social no Brasil. No Twitter, Bolsonaro disse que "milhões ficaram trancados em casa, perderam seus empregos e afetaram negativamente a Economia".
Veja post:

Segundo informações do O GLOBO, o presidente abriu reunião ministerial dessa terça, 9, lamentando as mortes provocadas pelo novo coronavírus e criticando a Organização Mundial da Saúde (OMS). No discurso, Bolsonaro reconheceu que não há comprovações científicas sobre o uso da hidroxicloroquina para tratar a doença, mas voltou a defender o uso do medicamento em pacientes diagnosticados com Covid-19. Ele ainda disse que pode reabrir escolas e o comércio após a menção da OMS sobre pacientes assintomáticos.
"Foi noticiado ontem, também de forma não comprovada ainda, como nada é comprovado na questão do coronavírus, que a transmissão por parte de assintomáticos é praticamente zero. Então, isso vai dar muito debate. Muitas lições serão tomadas", comentou Bolsonaro. Ele indicou que "com toda certeza isso pode ser analisada uma abertura mais rápida do comércio e extinção daquelas medidas restritivas adotadas segundo decisão do Supremo Tribunal Federal, governadores e prefeitos".
Testagem em massa
Para o epidemiologista Marcelo Gurgel, único jeito de saber se informação da OMS se confirma é fazendo uma testagem em massa e estudando o processo de transmissão entre os indivíduos, como se fosse uma espécie de "linha do tempo viral". Considerar a realidade de cada região também é essencial. Médico também reforçou que por ser um novo vírus, ainda não há muito o que se confirmar sobre ele, de modo que são necessários estudos e pesquisas, mas também obediência às medidas, que salvam vidas.
Hoje, no Brasil, número de mortos por Covid-19 ultrapassa 35 mil vítimas e os casos confirmados já são mais de 700 mil - em um país sem Ministro da Saúde desde 15 de maio.

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