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As sequelas e as superações das vítimas do coronavírus no Estado

Foto: Helene Santos


Era 20 de abril. O coronavírus já havia alterado rotinas e isolado muitas pessoas, em casas ou quartos de hospitais, quando Jackson Sampaio precisou ser internado. Ele também estava com a Covid-19. Foram 54 dias, entre a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e o quarto do hospital, antes de o médico psiquiatra e ex-reitor da Universidade Estadual o Ceará (Uece) voltar para casa.
Assim como o ex-reitor, muitas pessoas venceram o coronavírus, estão curadas da Covid, mas ainda convivem com as sequelas e os cuidados para continuarem a recuperação em casa. "Estou negativado da Covid-19, sim, mas com todas as sequelas da intubação e da UTI, como, por exemplo, a dificuldade de se pôr em pé, dificuldade de deglutição e alteração do sono", relata Jackson Sampaio. E acrescenta: "agora, estou bem. Em recuperação, com melhora diária de qualidade de vida", explica Jackson Sampaio.
A recuperação agora acontece em casa, mas o médico precisa de repouso. Sua esposa, a professora Célia Sampaio, da Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa da Uece, conta que os primeiros sintomas começaram a se manifestar na segunda semana de abril, com tosse seca, coriza e fraqueza muscular, que o levaram a acreditar que se tratava de uma crise alérgica.

Dois dias depois, a febre começou, seguida por um episódio de queda de pressão. O ex-reitor chegou a procurar atendimento de emergência e foi medicado, antes de precisar seguir para a internação. "Ele foi hospitalizado na noite do dia 20 de abril, e na manhã do dia 23 foi para a UTI. Dos 54 dias hospitalizados, ficou 26 na UTI e 28 dias no quarto. A permanência na UTI foi dividida em dois períodos, o primeiro de nove dias e o segundo de 17 dias, separados entre si por cerca de 16 horas", detalha Célia Sampaio.
O médico recebeu alta no último sábado (13), e, para ele, foram prescritos minerais, vitaminas e medicamentos anti-inflamatório e antitussígeno. A orientação é de não receber visitas durante os primeiros 15 dias após a alta, exceto pela equipe de saúde que o acompanha, e inclui enfermeiras, nutricionista, fonoaudióloga, fisioterapeuta, médico e assistente social.
Experiência
Já no caso de Eduardo Silva, 34, o processo de recuperação incluiu a passagem por quatro unidades de saúde. O motorista de aplicativo não pôde relatar a própria experiência devido a um problema na voz, causado pela intubação. O período de internação foi relatado por sua irmã, a professora Luciana Maria.
"Primeiro, ele foi no posto de saúde. Fez o exame para ver a oxigenação e estava em 68. Aí foi encaminhado para a UPA do Vila Velha no dia 6 de maio, umas 20h. Ficou dois dias na UPA e depois foi para o Hospital Leonardo Da Vinci. Ele foi para UTI, ficou entubado, fez hemodiálise. Há duas semanas, foi transferido para o Hospital Waldemar de Alcântara. Aí ficou na enfermaria normal", explica Luciana.
Eduardo recebeu alta na última segunda-feira (15), após 44 dias internado. Ele mora com a esposa, mas foi levado para a casa de um irmão para continuar se recuperando e ter auxílio durante as sessões de fisioterapia que foram recomendadas no hospital. O paciente perdeu massa muscular nos braços e nas pernas, e precisará continuar os exercícios em casa para readquirir a estabilidade nos movimentos.
"Ele ainda não está conseguindo andar, dá alguns passos, mas não aguenta muito tempo. Mas o exame de Covid-19 deu que ele não passa mais o vírus pra ninguém, e os exames dos rins estão normalizando", comemora a irmã. Em duas semanas, Eduardo voltará ao Hospital Geral Dr. Waldemar Alcântara para repetir exames e verificar a saúde dos rins.
Três dias antes de Eduardo, outro paciente que passou por mais de 30 dias de internação também pôde reencontrar seus familiares. O gerente de sistemas José Teixeira, de 43 anos, esteve internado por um mês e cinco dias para tratar a Covid-19, do dia 7 de maio até 12 junho, quando recebeu alta. O filho de José, Eduardo Cavalcante, conta que o pai é do grupo de risco da doença, por ser obeso e lidar com problemas de pressão e diabetes. Ele trabalhava em home office e cumpria o isolamento social.
Durante os 21 dias que passou em UTI, Teixeira chegou a ter entre 50% a 60% dos pulmões comprometidos. Agora, ele se recupera em casa com cuidados de fisioterapia para reverter o estado de mobilidade reduzida, e tratando ferimentos superficiais nas costas, ambos consequências do longo período de intubação.
Lembrança
José não transmite mais o vírus e só faz uso de remédios para alergia, mas a lembrança dos dias "preocupantes" permanece. "Na UTI, a gente só tinha notícia uma vez por dia. A gente esperava aquela hora entre 11h e 14h em que o médico ligava pra dizer como ele estava. Quando ele voltou pra enfermaria, foi melhor. Aí já em casa, passou o sufoco", afirma Eduardo.
"Foram mais de 30 dias deitado, meu braço parece um saco de cimento pra levantar. Mas a mente 'tá' boa, já estou dando suporte na empresa a distância", revela José Teixeira, brevemente, para evitar o cansaço ao falar.
Durante os dias em que esteve no leito de enfermaria, José fez amizade com outro paciente que dividia o mesmo quarto. Foi o contador aposentado Luís Alberto Rodrigues, de 65 anos, que passou um mês e três dias internado.
No hospital, ele foi submetido a uma traqueostomia para ser entubado com urgência, e teve uma parada cardíaca e colapso pulmonar durante o procedimento. Ele respondeu bem ao tratamento, e recebeu alta no dia 15 de maio. "Os médicos disseram mesmo que agora é mais de fisioterapia, já que ele tem que recuperar as funções motoras que se perderam nesse período de internação. Mas agora é vida normal aqui dentro de casa", diz Tayna Alcântara, filha de Luís.
Luto
Não apenas os pacientes sentem os feitos do coronavírus, algumas pessoas também voltam para casa com os rastros do luto. Para Juliana Andrade, 38, a perda para o coronavírus veio duplicada. Ela perdeu o ex-marido Murilo Bandeira, de 78 anos, e também a mãe, Ruth de Sousa, 67. Ambos com suspeita de infecção pelo coronavírus. Eles morreram uma semana depois, e foram sepultados no Cemitério Público Bom Jardim.
"Para mim, foi a pior coisa do mundo, não tivemos o direito de ver eles pela última vez, de fazer o reconhecimento porque não deixaram, nem de chegar a ver os corpos para saber se eram eles mesmo", diz Juliana.
A família aguarda o resultado do exame de Ruth, e a filha destaca que a idosa convivia com diabetes, hipertensão e problemas cardíacos. Murilo já havia recebido o resultado positivo, e também lidava com hipertensão. "É uma coisa muito triste, além de perder um ente familiar, não poder fazer mais nada, nem um velório", lamenta Juliana

Fonte: DN

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